EUTANÁSIA SEM PESO NA CONSCIÊNCIA – É POSSÍVEL?

Um assunto delicado e com muitas opiniões divergentes é a questão da eutanásia em animais. Não somente em animais de estimação mas também no caso de animais de produção, utilizados para fins de pesquisa, ou mesmo nos casos de animais silvestres que estejam oferecendo risco à vida humana.

Passamos, inclusive recentemente, pelo caso de morte da onça Juma (mascote do Exército brasileiro da Amazônia) durante uma cerimônia com a tocha olímpica. O abatimento de uma espécie ameaçada de extinção continua gerando discussões sobre a necessidade de se manter animais adotados pelo Exército, ainda que tenham sido capturados e salvos das mãos de caçadores e/ou de cativeiros.  Um outro caso recente é o do gorila que foi morto após uma criança entrar em seu recinto no zoológico de Cincinnati, nos Estados Unidos.

Apesar desses casos, de certa forma distantes, no dia a dia do médico veterinário (seja ele clínico de pequenos ou grandes animais) a decisão da eutanásia continua a ser um peso grande sobre os ombros , e que geralmente é difícil de ser transmitido aos proprietários. Recomendar o procedimento de eutanásia em animais de grande valor sentimental e/ou monetário é uma responsabilidade extremamente séria e delicada, e uma decisão que somente deve ser tomada após consideradas todas as outras opções. Muitos profissionais, inclusive, passam por um sofrimento e angústia pessoal muito grandes ao terem que tomar esse tipo de decisão, e não estão psicologicamente preparados para, ou ao menos convictos de, o que deve ou não ser feito como melhor alternativa para lidar com a(s) vida(s) em questão.

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Não é novidade o caso da médica veterinária Jian Zhicheng, que cometou suicídio após receber várias críticas na internet por ter eutanasiado mais de 700 cães no abrigo público de animais que comandava em Taiwan. Muitos outros profissionais passam por conflitos psicológicos e situações de depressão profunda após terem sido responsáveis por ações de sacrifício em massa, muitas vezes para a própria proteção da saúde pública humana. O fato é que, quando a eutanásia é realizada sob devidas recomendações, retira-se um pouco desse peso da decisão sobre as costas de um profissional, ainda que haja um pesar na consciência de caráter emocional e humano. Entretanto, ainda existem muitos casos em que a eutanásia é realizada sem a devida indicação, principalmente no cenário PET, onde a falta de informação do profissional (como em casos polêmicos como a leishmaniose, por exemplo), ou a negligência do proprietário acabam por findar a vida de um animal sem que haja real necessidade.

Para facilitar a leitura e acesso a informações de confiança, seguem abaixo as indicações legais para eutanásia animal, listadas no Guia Brasileiro de Boas Práticas para a Eutanásia em Animais, do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV):

  1. o bem-estar do animal estiver comprometido de forma irreversível, sendo um meio de eliminar a dor e/ou o sofrimento dos animais, os quais não podem ser controlados por meio de analgésicos, sedativos ou de outros tratamentos;
  2. o animal constituir ameaça à saúde pública;
  3. o animal constituir risco à fauna nativa ou ao meio ambiente;
  4. o animal for objeto de ensino ou pesquisa;
  5. o tratamento representar custos incompatíveis com a atividade produtiva a que o animal se destina ou com os recursos financeiros do proprietário.

No âmbito das indicações acima descritas, é importante ressaltar que a utilização da eutanásia em animais fica restrita às situações nas quais não há a possibilidade da adoção de medidas alternativas. Além disso, deve-se atentar para o respeito às legislações pertinentes.
(Trecho retirado do
Guia Brasileiro de Boas Práticas para a Eutanásia em Animais: http://portal.cfmv.gov.br/uploads/files/Guia%20de%20Boas%20Pr%C3%A1ticas%20para%20Eutanasia.pdf.pdf)

eutanasia

Gostaríamos também de alertar os proprietários de animais (independente do porte), de que a indicação da eutanásia parte sempre do profissional veterinário, sendo de sua completa autoridade e responsabilidade oferecer ou não a opção de realizar de tal procedimento.

No julgamento do Médico Veterinário para indicação da eutanásia, o aspecto econômico deve ser o último numa escala de prioridades e, jamais, deve-se realizar a eutanásia como forma de atender a uma necessidade do proprietário, como por exemplo, a convivência com as limitações impostas pela idade avançada do animal.
( Trecho retirado do
Guia Brasileiro de Boas Práticas para a Eutanásia em Animais: http://portal.cfmv.gov.br/uploads/files/Guia%20de%20Boas%20Pr%C3%A1ticas%20para%20Eutanasia.pdf.pdf ).

É aconselhável que todos os profissionais envolvidos frequentemente com a prática de eutanásia, passem regularmente por treinamentos psicológicos preparatórios, com o objetivo de minimizar o impacto negativo que a prática causa nas equipes como um todo. Os treinamentos em grupo podem ajudar e confortar as equipes que trabalham em conjunto,  evitando que doenças como depressão e ansiedade se instalem ou se agravem.

Respondendo a nossa pergunta inicial “É possível a prática de eutanásia sem peso na consciência?”: sim. É possível que o peso da decisão seja retirado, uma vez que tenha sido uma decisão informada e convicta. Para se ter convicção de uma decisão é necessário estudo, leitura. Subsequentemente, é preciso muita empatia e tato no momento de transmitir a informação ao(s) proprietário(s). Muitos profissionais, inclusive, optam por não realizar tal procedimento em suas clínicas justamente por não conseguirem lidar emocional e psicologicamente com os proprietários e com o momento em si de terminar uma vida.

O peso da responsabilidade é sempre do Médico Veterinário, e cabe a ele informar e tranquilizar o proprietário de que a opção dada não foi leviana. Mais do que isso, no caso dos proprietários, quando se tem a consciência de que durante toda a vida do animal foi oferecido e tentado o melhor para sua saúde, não deve haver o sentimento de culpa ou cobrança. A morte é certa a todos os animais (nós humanos inclusos), e é uma condição inevitável que chegará a todos nós ainda que tenhamos uma boa saúde a vida toda. Talvez mais do que essa preocupação, nos caiba garantir que esses animais tenham mesmo é uma vida plena e com boas condições de bem-estar, para que usufruam de sua existência da melhor forma possível e sigam o curso da natureza tendo em nossa companhia um conforto e alegria que não teriam sem ela.

Recomendamos e relembramos a todos os profissionais que, antes de realizarem o procedimento de eutanásia em qualquer animal, tenham consigo e exijam o preenchimento do “Formulário de Autorização para Eutanásia” que consta na página 202 do Manual de Responsabilidade Técnica e Legislação (Edição 2014) do CRMV-SP, e é sugerido como forma de assegurar e atestar a ciência de todos os envolvidos.

Att,

Equipe Qualvet.

Obs: mais informações sobre as condições ideais e adequadas para recomendação e realização da técnica podem ser obtidas no Guia Brasileiro de Boas Práticas para a Eutanásia em Animais, cujo link para acesso pode ser encontrado no texto.

 

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